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Uma Noite na Quinta da Regaleira - João Ventura

por Imaginauta, em 12.09.17

Deixei o carro à saída de Sintra e fiz o resto do percurso a pé. Fui andando cuidadosamente pela berma da estrada até encontrar o muro da quinta. Continuei mais um pouco e do escuro surgiu o André, tão de súbito que me assustou.

“Calma, sou só eu. Vamos lá!”

Colocou às costas a mochila que tinha no chão e eu segui atrás dele durante umas dezenas de metros até que ele parou e disse: “É aqui.”

O muro tinha naquele ponto umas pedras salientes que o tornavam muito fácil de escalar. Rapidamente estávamos dentro da quinta.

A lua já tinha nascido, e fomos seguindo sempre pela berma dos caminhos, utilizando a sombra das árvores, na direcção do Poço Iniciático. Chegados à abertura do Poço, dei comigo a pensar como raio tinha vindo parar a esta aventura…

 

……………………………

 

Desde muito novo sempre gostei de cenas ligadas ao oculto: histórias de fantasmas, filmes de terror, coisas assim. Isto fez-me conhecer muita gente com os mesmos interesses, em encontros literários, festivais de cinema, na Net…

Já não me lembro em qual delas conheci o André, e ao longo dos anos fomo-nos tornando amigos.

Tendo eu próprio como hobby a escrita, o ocultismo interessava-me como tema de ficção, como um faz de conta, como uma área com potencial para produzir narrativas interessantes. Foi com alguma surpresa que tomei consciência de que algumas pessoas realmente acreditavam em algumas daquelas histórias.

Uma dessas pessoas era o André.

Falava-me de vez em quando de um seu tio-avô, grande estudioso das ciências do oculto, que se correspondia com ocultistas de todo o mundo e organizava sessões de espiritismo. Esse seu antepassado vivia num solar na Beira, onde B ia com alguma frequência pesquisar a biblioteca que lá tinha ficado. No regresso de uma dessas visitas encontrei-o entusiasmado.

“Já te disse que a biblioteca do meu tio-avô é um manancial de literatura ocultista. Imagina o que lá descobri desta vez!”

Com o que me pareceu verdadeira reverência, tirou da pasta que trazia um livro que me passou para as mãos. Encadernação a couro, tinha na capa escrito em letras douradas, ‘O Verdadeiro Método de Invocar os Mortos e Outros Espíritos que Habitam o Mundo do Além, escrito por O Guardião do Portal, impresso em França no ano MDCCLXXX’. Folheei-o rapidamente, e pareceu-me um repositório de receitas do tipo Livro de São Cipriano, mas obviamente mais antigo. Claro que não disse isto a André; elogiei o livro e acrescentei qualquer coisa do género “A biblioteca do teu tio deve estar cheia de preciosidades” e ficámos por aí.

Estive algum tempo sem ver o André. Quando me apareceu subitamente no café onde costumo parar, vinha eufórico.

“Pá, tenho andado a estudar o livro que te mostrei da última vez. Muito detalhado, com descrições precisas dos procedimentos. Já preparei uma invocação e preciso da tua ajuda.”

“Preparaste o quê? E quem te disse que eu estava disposto a alinhar nisso, o que quer que seja?”

“Tens de vir, é o teu autor favorito, Edgar Allan Poe!”

“O quê, tu vais invocar o espírito de Poe?”

“Oh, yeah…”

“Para lhe perguntar o quê?”

“Bom, ainda não pensei muito bem… Oh pá, mas um tipo que morre aos quarenta anos tendo escrito o que ele escreveu, deve ter muita coisa a dizer…”

“Isso vai dar merda…”

“Não vai nada, pá! E descobri o sítio ideal para a invocação: o fundo do Poço Iniciático, na Quinta da Regaleira. E estive a fazer uns cálculos, e depois de amanhã uma altura óptima, porque a lua cheia vai passar praticamente na vertical do Poço por volta da meia-noite.”

Nem sei bem como, mas o tipo conseguiu espicaçar-me a curiosidade até obter o meu acordo em o acompanhar nesta aventura idiota.

E aqui estávamos nós a entrar no Poço Iniciático.

 

……………………………

 

 

André descia à frente com uma lanterna. Comecei a contar os degraus mas quando cheguei a cem escorreguei, porque o piso ia ficando mais húmido, e com o esforço para me equilibrar distraí-me na contagem. Mais um pouco e chegámos ao fundo do Poço.

André pousou a lanterna no chão e da mochila tirou 5 velas, que dispôs em círculo, usando como referência pontos da rosa dos ventos embutida no chão. Quando lhe chamei a atenção para o facto de as velas não estarem equidistantes, respondeu-me que no livro dizia que isso não era importante, e eu calei-me.

Tirou da mochila um livro que colocou no centro da rosa dos ventos, e explicou-me que era o volume de contos de Poe recentemente editado. Enquanto realizava estas operações olhava para cima, para a abertura do Poço, com alguma ansiedade. Até que vimos a lua começar a surgir no buraco negro da abertura.

Nessa altura despejou sobre o livro gasolina de um frasco que trazia no bolso e pegou-lhe fogo. As chamas rapidamente ganharam altura.

Aí começou a entoar uma ladainha numa língua para mim desconhecida, presumo que fosse a invocação que tinha aprendido no livro da biblioteca do tio-avô. Pelo meio só reconhecia de onde em onde as palavras Edgar Allan Poe.

De súbito levantou-se um vento no fundo do poço, que apagou as velas e o fogo que consumia o livro e perante nós apareceu Edgar Allan Poe, ou a sua imagem, e era óbvio que não estava satisfeito.

Estúpidos viventes, por que viestes perturbar o meu repouso? Não fazeis a mínima ideia do tipo de energias com que estais a interferir! A fronteira que separa os nossos mundos é muito fina e pode facilmente romper-se com as vossas acções irreflectidas. De facto neste preciso momento aproxima-se Lovecraft acompanhado das criaturas medonhas fruto da sua imaginação. Não sei se conseguirei segurá-lo enquanto a fronteira se reconstitui. Fugi daqui, imbecis inconscientes, enquanto é tempo!”

Corremos para o início das escadas e subimos os degraus a correr tanto quanto podíamos. Entretanto o Poço era varrido por um vórtice, o ruído que fazia parecia o reactor de um avião a meia dúzia de metros. Só quando chegámos à entrada do poço o movimento do ar amorteceu.

Fizemos rapidamente o caminho de regresso até ao ponto onde tínhamos saltado o muro. Chegámos aos carros e cada um foi para casa.

 

……………………………

 

Não tornei a falar com o André nem tenho grande vontade de o fazer. Naquela noite, por culpa dele, apanhei o maior susto da minha vida!

Também nunca mais voltei à Quinta da Regaleira…

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publicado às 12:00


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