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Um dia nublado - Dray Duke

por Imaginauta, em 12.09.17

A alvorada do dia 11 de Setembro de 2200 d.c. levanta-se preguiçosamente.

Tudo o que resta da população de seres humanos e da sua espécie encontra-se na Hiper-pólis de São Paulo com os seus 70 Milhões de habitantes. 

Evento! Toda a cidade é destruída. Toda? Não. Sobra uma nobre e estóica fachada dum velho edifício que deixa a sua pele arquitectónica intacta no centro histórico da cidade. 

No parapeito deste edifício (doravante chamado CEX) poisa uma colorida ave.  Ela chilreia alegremente mas, apercebendo-se da morte basculante e da destruição que ascende do solo às nuvens que se formam com as toxinas e poluição à sua volta, esvoaça para longe daquele cenário dantesco. 

De repente, no CEX, no rés-de-chão do edifício, ouve-se uma explosão sonora.

Numa divisão praticamente no negro, estranhas cápsulas cospem para o ar ácido clorídrico que emana das baterias e motores que as alimentam, o ar é irrespirável. Uma cápsula apresenta movimento. A cápsula é branco-frigorífico. É uma cápsula criogénica. A cápsula alimentava-se de um campo térmico. Contudo, devido ao Evento, todos os sistemas eléctricos se desligaram e mesmos os fios e cabos se desligaram e desconectaram, como ervas daninhas digitais mortas.

A divisão ferve e no canto do nada, pouco, ou nada se vê. No interior não existem janelas nem portas. A luz marca meia presença. O Evento provocou a extinção do sistema de suporte de vida, que a electricidade mantinha vivo através do campo térmico. Os seres vivos que aí jaziam dormentes, estão agora mortos. Contudo, os fios da cápsula pertencendo à cápsula do modelo Yoakim 33 ainda tem algum campo eléctrico que mantém a cápsula milagrosamente a funcionar, mesmo se em modo de preservação de energia. 

Um som que ecoa na sala, escuta-se. É um cacarejar de galo. O galo tinha seguido o calor e odor da fonte de energia da cápsula sobrevivente e aí marcara o seu território, urinando à sua superfície. A urina reactivou a corrente eléctrica nos fios, produzindo um curto-circuito, o que fez com que a cápsula voltasse a ter ‘vida’. A tampa de aspecto funerário encontra-se aberta e no seio dela encontra-se um espécimen humano, Yoakim 33. Em vida era um alto diplomata que defendia os interesses da selva amazónica contra os avanços consumistas que crescentemente compravam porções da selva amazónica do tamanho de países Europeus, para ficaram com os seus dividendos naturais e fósseis. Há 150 anos atrás, Yoakim estava a caminho da ONU para impedir que o último grande lote de floresta tropical fosse comprado por uma multinacional. Tivera um ataque cardíaco en route e ficará em coma num hospital da mesma São Paulo. Como tinha credenciais de diplomata pode ser criogenado. Um homem de 40 e poucos anos, de baixa estatura, careca e com uma copiosa barba. 

Está nu mas tem um boné dos New York Yankees na cabeça que lhe tapa meia cabeça. Neste momento, o dito galo a que juntam mais alguns mordiscam avidamente no corpo nu de Yoakim. Depois de terem marcado o seu território foram atraídos pelo odor corporal de Yoakim. Yoakim apresenta duas feridas, uma na coxa de tamanho considerável e uma mais pequena no ombro. Yoakim está inconsciente ainda sedado, mas contorce-se com dores, até a um momento, onde um nervo é tocado e acorda. Os seus gritos são tão fortes que fazem estremecer as paredes e o tecto desta mórbida e escura divisão. 

Yoakim desperta aterrorizado. Ele não vê nada além da pouca luz de presença que emana da sua decrépita cápsula, que mal ilumina o seu corpo. Não vê mas sente algo com peso em cima de si. Nomeadamente na sua coxa. Ele tacteia o seu corpo até à origem da dor até chegar ao pescoço dum galo. Agarra-o e tenta encontrar algo com o qual se possa defender. Vira-se para os lados e  descobre um kit de sobrevivência, ao lado há um pequeno machado de segurança, caso a abertura automática e a manual não funcionasse. Degola o galo com regalo.

De seguida, tenta encontrar uma fonte de luz para tentar sair desta divisão claustrofóbica e fedorenta.  Mas o espaço está tão escuro que não consegue dar dois passos sem tropeçar em algo. Yoakim impaciente começa a tossir e a sufocar naquela atmosfera nefasta. Volta à cápsula e  atira para o chão tudo o que não seja eventual fonte luminosa. Enquanto está a atirar coisas para o chão uma delas acende-se. Era uma lanterna. Baixa-se devagar e apanha-a. Aponta-a e com um movimento panorâmico cobre a divisão toda. O que vê não é agradável nem tranquilizador. 

As paredes estão repletas de caixões translúcidos dispostos verticalmente com seres humanos e animais mortos. Vomita com intensidade. Procura uma saída. Aponta para uma cápsula entreaberta e vendo um espécimen com roupa e calçado em bom estado, decide retirar-lha. Vestido, calçado e munido de machado e lanterna avança ao comprimento da divisão em busca duma qualquer saída. Desesperado por não encontrar saída visível, começa a destruir os túmulos translúcidos com raiva, um a seguir ao outro. Ao destruir um, observa através da poeira um rasgo de luz que emana dum pequena portinhola localizada na parte inferior de um dos túmulos. Parece talhada para anões. Com a ajuda do seu machado, abre-a. Atrás da porta há um corredor muito escuro e muito calado, que desce. Começa a percorrer, a medo, pé ante pé. Com susto, encontra um pedaço de lenha no percurso e resolve atirá-lo com a máxima força para o ponto mais distante do corredor. Não ouve qualquer som, o que significa que o túnel desce muito e é profundo. Decide contudo continuar pois aqui o ar é respirável e o ar mais húmido e agradável. Ao cabo de três minutos, decide parar, pois as suas feridas não lhe dão descanso, retira alguma lama das paredes argilosas do túnel cavernoso e esfrega na coxa e no ombro. Volta-se a vestir e continua a avançar. Depara-se com uma bifurcação. Uma está mais quente e outra mais fria. Decide avançar pela mais quente. O caminho começa a ter uma inclinação positiva e ele sobe-o. No fim cheira lhe a queimado e não há passagem. Com o machado desbrava a terra e pedras que tem à sua frente, até que um tsunami de luz inunda lhe a retina e o túnel dá lugar a uma cratera de destroços. Yoakim avança até ao exterior com sofreguidão. Com os olhos fechados ele enche os pulmões com o ar exterior de uma forma quase infantil. E assim permanece alguns minutos. Quando os abre, petrifica. 

 

A cidade que outrora inundava aquela área toda numa infinita paisagem de betão e vidro desapareceu completamente e a vista agora completamente desafogada permite ver que tudo fora terraplenado e apenas uma estrutura se mantém erecta, a fachada do CEX. Chora compulsivamente. Acordara ele no meio daquele inferno de máquinas artificiais e morte demente e obscurecida para no exterior não encontrar mais que morte calada espalhada por toda uma cidade. Não havia pedra sobre pedra…sem água e comida, não chegaria ao fim da noite. 

 Numa árvore queimada, junto à fachada, observa um pássaro que sacode água da sua plumagem, pendurado num ramo duma árvore que parece mais um esquisso duma árvore, do que uma real árvore. Uma ameba de esperança poisa em si. O pássaro descansa despreocupadamente no ramo. E Yoakim vai ao seu encontro. Mas com a sua forma desajeitada, espanta-a e ela esvoaça para fora do seu campo de visão. O desespero ajoelha-o. O sol é momentaneamente tapado por uma figura negra que passa. É uma ave de grande envergadura que transporta algo no seu bico, ela pousa com a precisão dum helicóptero ao pé de Yoakim e baixa a cabeça como quem faz continência e um frasco sai do bico para as mãos de Yoakim que sem questionar o conteúdo do frasco ingere o precioso líquido de um só trago. Ele agradece ao pássaro e vê-a afastar-se. Estafado encosta-se a uma rocha que está próximo dele e deita-se no chão. 

Dorme toda a noite até ao dia seguinte nascer.

Quando desperta, sente uma fresca brisa a roçar-lhe as faces. E entreabre os olhos, um após o outro com agrado. Descobre então que está a voar, transportado no dorso duma corvo gigantesco. Yoakim quase cai quando se apercebe quão alto estão a voar. Mas as penas são suficientemente espessas para que ele se possa agarrar. Passados alguns minutos de voo em altitude, o corvo começa a sua descida, em espiral negativa. Mal tocam no solo, Yoakim corre com todas as forças que ainda lhe restam até uma estrutura parecida com uma gruta para se abrigar. Após recuperar o fôlego e acreditando que está fora de qualquer perigo, senta-se a descansar. Enquanto lhe passam pelos olhos flashes do que lhe acontecera nas últimas 24 horas. Sente a terra a tremer. Não vê nada no exterior, a não ser uma floresta. O som vai aumentando de intensidade, até que se torna ensurdecedor. Pelo canto do olho vê urtigas do tamanho de girassóis a correrem como um exército, precipitando-se para a floresta. Não acredita no que os seus olhos vêem. Fecha os olhos e volta a olhar para a floresta, a cauda da legião de urtigas acaba de entrar na floresta e desaparece completamente entre a vegetação. O dia já vai velho e a luz começa a partir para Oeste. Pondera as suas hipóteses: ora arranja coragem e aventura-se floresta adentro eventualmente encontrando algo que se assemelhe a comida (mas arriscando que alguma criatura lhe faça mal) ou regressa ao resguardo uterino da gruta que lhe dá conforto e providencia abrigo dos elementos, mas não lhe oferece qualquer sustento nutritivo de relevo. Decide apostar na gruta. Vira-se, liga a lanterna, afastando-se progressivamente da entrada e vai percorrendo a gruta cuidadosamente. A dado momento, observa uma luz ténue ao fundo da gruta que se vai intensificando à medida que se aproxima dela. Desliga a lanterna e chega ao fim do percurso. Existe uma porta retroiluminada. Yoakim transpõe a porta e é imediatamente é agarrado por dois vultos que o prendem. A porta fecha-se atrás dele em silêncio.

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publicado às 12:02





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