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O Mural - Pedro Cipriano

por Imaginauta, em 11.09.17

O ecrã bloqueia. Roberto acabara de lançar uma nova versão do software em que está a trabalhar no servidor. Duas da manhã, só se ouve o som da ventoinha do portátil. O engenheiro mexe o rato e tenta várias combinações de teclas. Acaba por pressionar o botão de reset.

Enquanto aguarda que o computador reinicie, agarra no smartphone. Quer dar uma olhada na rede social. Aparece-lhe uma foto de Isabel, cabelos negros longos e encaracolados, olhos verdes e um sorriso felino. Sente os olhos húmidos. Há seis meses atrás, viviam juntos neste apartamento. Ela deixara-o umas semanas depois de ele arranjar este emprego. Roberto atira o telemóvel para cima da mesa, tentando ignorar o homem que estava agarrado a ela.

Não há ligação à Internet. Corre um diagnóstico e percebe que o router está mal configurado. Tenta aceder ao painel de administração pela wireless. Acesso negado. A palavra-passe fora mudada.

– Mas que raio! – Bate com o punho na mesa. – Onde é que terei metido o cabo de rede?

Abre a gaveta para procurar um no meio do emaranhado.

O smartphone vibra. Uma notificação. Uma memória de há cinco anos. Um rapaz de dezoito anos, magro e alto como um espeto. Tinha uma barba que ainda não se desenvolvera por completo. Era o seu irmão mais novo, Paulo, ao lado do seu primeiro carro. O único. O que conduzira naquela curva fatal. Removeu a notificação, arrastando-a para fora do ecrã, como gostaria de varrer da memória o facto de ter embebedado o irmão nessa noite.

Leva o portátil e o cabo até à entrada do apartamento. Liga-se ao router. Nada resulta. Vê-se obrigado a restaurar as definições de fábrica para restabelecer a ligação à Internet. Volta à secretária. O login ao servidor falha, apesar das credenciais estarem correctas.

O telemóvel inicia uma música irritante. Uma chamada.

– Quem é que liga a estas horas?

Desconhece o número. Rejeita a chamada. O toque volta de imediato. Outro número desconhecido. Rejeita. Mais uma chamada. Aceita.

– Estou?

Estática. Os segundos passam.

– Estou? Quem fala? Que raio de brincadeira é esta? São quase três da manhã!

Só a estática lhe responde. Rejeita.

Nova chamada. Desliga o aparelho e decide fazer uma pausa. Vai até à cozinha e abre o frigorífico. Não há nada, para além de uma catrefada de cervejas e dois restos de comida rápida chinesa. Agarra num copo usado e coloca-lhe uma quantidade generosa de whisky que estava em cima da bancada. Podia ter agarrado na de vodka ou na de rum. Não lhe fazia grande diferença. Bebe o conteúdo de uma vez e acaba por levar a garrafa para a mesa.

Algo o está a impedir de se ligar aos servidores. Tenta todas as alternativas. Nada resulta.

Um clique sobressalta-o. Um email do CTO da empresa. Algo incomum.

 

Por que é que tens o telefone desligado?

 

Roberto volta a ligar o aparelho, receoso que as chamadas anónimas continuem. Assim que o dispositivo inicia, faz uma chamada para o CTO.

– Estou, daqui fala Stephen Campbell, CTO da Social Network.

– Estou, daqui fala Roberto Dias, do departamento de Machine Learning…

– Que raio, por que é que tinhas o telemóvel desligado?

– É que…

– Lá estás tu com desculpas. Completaste o que te pedi?

– Sim. O gestor inteligente de conteúdos está pronto.

– Quando é que vai ser lançado?

– Meti-o no servidor há uma hora.

– Deste-lhe acesso total aos dados?

– Sim, tal como tínhamos combinado.

– Perfeito, depois falamos.

O CTO desliga. Roberto bebe um trago generoso. Abre uma aba para a rede social. Uma notícia sobre cancro da mama. Enterra a cabeça nas mãos. A mãe fora diagnosticada no ano passado. Os longos cabelos cor-de-avelã, com alguns cinzentos pelo meio, caíram durante a quimioterapia. Nem as sobrancelhas sobraram. Sentia um aperto no coração em cada visita e um maior ao lembrar-se que demorara quatro meses para lhe fazer a primeira visita.

Seca as lágrimas e endireita o cabelo. Envia um email para o gestor de sistema:

 

Não consigo entrar nos servidores. Parece que me mudaram a palavra passe ou que me revogaram as permissões.

 

Enquanto espera pela resposta, bebe outra golada e faz scroll. Engolir é mais fácil que saltar, diz outra notícia no seu mural. Reconhece o contexto na publicidade do metro de Londres. Termina a garrafa. Sente o álcool a subir-lhe ao cérebro.

O email recebe resposta:

 

A tua conta foi eliminada. Vou tratar de criar uma nova.

 

Volta à rede social. Um pouco mais abaixo, um anúncio de crédito ao consumo.

– Como se já não estivesse endividado o suficiente…

Uma grande bebedeira num casino tinha-lhe custado uma dívida que demoraria anos a pagar.

O smartphone toca de novo. Atende.

– Ouve lá, o que é que fizeste aos servidores?

Roberto estremece.

– Nada…

– Nada o tanas! A minha conta está bloqueada e o administrador de sistema disse-me que o teu update se está a espalhar por todos os servidores sem autorização. Já passou para os nossos outros data centers e anda a apagar contas, entre outras coisas. Ninguém sabe como parar aquilo!

– Então…

– Então, diz-me como parar isto!

– Não sei…

– Roberto, pensa, que é para isso que te pago! Aquilo está a causar disrupções de serviço…

– Juro que não sei o que fazer…

– Escolhes esse caminho?

– Não estou a perceber…

– Eu sempre soube que serias a ovelha negra. Tens noção que nos estás a fazer perder milhões? Alguma coisa em tua defesa?

– Estou farto de aturar a tua atitude! Pensas lá porque tens milhões, que podes fazer o que quiseres com os empregados...

– Isso arranja-se, estás despedido. E prepara-te para um processo por danos….

Ao invés de desligar a chamada, Roberto atira o telemóvel contra a parede, partindo-o em vários pedaços. Volta à bancada e serve-se com vodka. De súbito, sabe o que fazer. Dirige-se à casa de banho deixando o navegador aberto na rede social. No mural está um artigo sobre a interacção perigosa entre alguns medicamentos e álcool. Fora a sua melhor criação.

 

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publicado às 18:16


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