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Gatos que gritam - Ana Ferreira

por Imaginauta, em 12.09.17

O dia tinha aberto com uma discussão logo pelas sete da manhã. A minha tia tinha-me ligado a chorar tanto que mal conseguia respirar, nem sei como ainda assim arranjou maneira de me gritar. A sua mãe, a minha avó, tinha morrido. Ao fim de cinco penosos anos ela tinha-nos abandonado. Pousei o telemóvel na bancada e deixei a minha tia gritar, enquanto isso fui acender o meu primeiro cigarro do dia. Depois da minha mãe, a minha avó tinha sido a minha pessoa favorita. Aliás, várias vezes ao longo da minha vida, a minha avó tinha passado à frente da minha mãe nesse ranking afetivo. Ela deixava-me comer os chocolates que eu queria, enquanto que a minha mãe me dava um estalo na mão. Ela não se importava assim muito quando eu lhe mandava os vasos ao chão por acidente, já a minha mãe não me deixava ir sem um raspanete e um puxão de orelhas. E quando desisti da faculdade a minha avó disse-me que não me preocupasse, enquanto a minha mãe quase deitou a casa abaixo.

E no entanto, ao fim de cinco penosos anos, mais os quatro que tinha vivido com ela, já não tinha mais nada para sentir. Mesmo com a descrição desnecessariamente gráfica da minha tia, que a desgraçada da minha avó morreu sozinha a babar-se no Conde Ferreira, não consegui chamar uma única lágrima.

Também, não tentei.

Peguei no telemóvel e ouvi a minha tia dizer, surpreendentemente baixinho, Estás contente, não estás?

 

Nessa noite, adormeci sem grandes problemas. No entanto, às três da manhã acordei. Eram três da manhã quando os ouvi pela primeira vez. Estava sozinha, já deitada na cama com o cobertor puxado até ao nariz quando ouvi os gritos. Tão acutilantes, tão humanos, que pensei de imediato numa filinha desordenada de bebés babados e ranhosos a gritarem desalmadamente, agitando braços rechonchudos, gritando pela mãe e porque de tanto gritar já lhes ardiam os pulmões.

Mas não eram humanos. A cacofonia vinha do estridente miar duma ninhada de gatos.

Nunca poderia dizer porquê mas esta realização não me ajudou. Continuei a sentir o coração pesado, que de desenfreadas batidas tinha passado a dolorosas pancadas.

Puxei os cobertores por cima da cabeça e esperei que o ruído terminasse.

Contra os meus desejos, o coro continuou.

Cerrei os olhos a imagens de gatinhos feridos, talvez acabados de nascer, a lamber o pelo sem brilho da mãe que tinha trocado a sua vida pela deles.

Tinha de fazer alguma coisa. Mas vivia no terceiro andar dum prédio enorme sem elevador, a noite era escura e fria e eu não tinha bem a certeza onde estavam os sapatos. E a minha avó estava morta e eu tinha medo.

Lembrei-me da minha amiga Sandra que me tinha contado, já há anos atrás, que o gato da mãe tinha sido morto à pancada por uns miúdos com um punhado de pedras e muito tempo livre. Imaginei que o pobre Patudo, provavelmente miou, gritou, como estes gritavam agora.

Empurrei a testa contra a parede. O que queria era bater nela, abrir a cabeça e dormir. Mas aquelas almas berravam, berravam e o tinir daquele desespero punha-me a dar voltas na cama, a apertar a cara com mais força ora contra a parede, ora contra o colchão ora contra a almofada, quase até sufocar.

O dia de amanhã chegaria. Daí a três, três horas e meia, mais coisa menos coisa, tinha de me começar a preparar para o meu emprego banal que era já ali a duas ruas atrás deste inferno. A manhã chegaria, por isso esperei. Pedi perdão a um deus em que não acredito. E esperei.

 

Os gritos continuaram até às cinco. No que parecia ser o seu auge, a meio grito, tudo acabou subitamente. De repente, silêncio. Como se as últimas horas não tivessem acontecido. Silêncio.

 

No dia a seguir fiz questão de tomar o café no sítio onde os loucos e os bêbados do bairro se congregavam, o café Granada cujas paredes emitiam, a qualquer hora do dia, o cheiro a caril. A minha tia tinha deixado uma série de voicemails que eu tinha apagado sem ouvir. Até o meu tio me tinha ligado, ele que nunca prestou grande atenção à minha existência, nem mesmo nos anos em que sozinha tomei conta da mãe dele. Vi que a televisão estava a passar uma peça sobre estatísticas de violência doméstica e decidi ficar antes na esplanada. Desse assunto já sabia quanto bastava, estava por todo o lado, como os gritos dos gatos tinham estado ontem à noite.

Na esplanada fiquei horas a ouvir conversas, à espera que alguém falasse dos gatos. Bebi quatro cafés e um carioca de limão enquanto esperava. Ninguém comentava o sucedido, nem as pessoas que eu sabia que viviam nas redondezas. Se eu consegui ouvir, eles também tinham de ter ouvido. Ocorreu-me o pensamento algures entre o terceiro e o quarto café que talvez todos tivessem ouvido, talvez não existisse uma alma ali que não tivesse ficado tão perturbada quanto eu e por causa disso tinham todos decidido não comentar. Por ser demasiado bizarro.

Quando me aproximei do balcão para pagar o carioca, aceitando por fim a derrota às 19h30, quase que quebrei o pacto; quase que comentei a situação com a menina do balcão que tinha sempre um sorriso para oferecer com o pacotinho de açúcar. Mas depois de quatro cafés e um carioca, depois de umas parcas horas de sono mal dormido, com os olhos vermelhos a arderem das lentes que ainda não tinha tirado, achei que seria melhor simplesmente pagar.

Regressei a casa e sem jantar, sem trocar de roupa, enfiei-me na cama.

 

Sonhei com a minha primeira e única gata, branquinha e felpuda, amaldiçoada com o ridículo nome de Cebola só para chatear a minha avó, que não gostava de gatos ou de cebolas.

Ela foi a minha melhor amiga durante anos, durante os anos solitários a viver num isolamento quase total na aldeola da minha avó, que estava a uma câmara e um posto de bombeiros de ser considerada apenas um ajuntamento de casas separadas ora por troços de densa floresta ora por campos de cultivo vigiados por cães do tamanho de lobos. Eu tinha muito medo desses cães, sentinelas do inferno. Estava sempre dividida entre querer passar por certas casas e certas ruas com os fones a rebentar o heavy metal mais obscenamente gritante – só para me poupar e não ter de os ouvir rosnar – e o meu medo de não os ouvir, de não reparar que tinham saltado o portão e que vinham a correr na minha direção para me desfazer. Por isso caminhava rápido. Colava-me às mulheres que passavam com cestos de fruta, de legumes, de ovos; caminhava atrás do senhor José e da sua enxada e acertava os passos com os seus para que não desse por mim.

Sonhei que regressava a casa e que tinha a Cebola à minha espera, como fazia sempre. Deitava-se em cima do muro à espera de me ver e miava a sua canção que dizia bem-vinda a casa.

Tinha uns olhos inteligentes, brilhantes, que me viam mesmo, que me acalmavam sempre. E tinha, estou certa, um motorzinho dentro dela que a fazia ronronar super alto. Tão alto que quase nem dava pelos pratos que a minha avó mandava ao chão, ou pelas portas a bater, nem mesmo pelas pratas que voavam da janela da cozinha e aterravam no quintal, umas vezes entre as couves, outras no meio das cenouras. E quando a tempestade tinha passado e a minha avó se retraía para dentro do seu quarto a dedilhar o terço, era a Cebola que me fazia companhia enquanto eu fazia a colheita da prata e passava pelo laborioso processo de a limpar. Horas e horas a puxar lustre de terra, tal como a minha falecida mãe fazia.

Sonhei que segurava a Cebola nos braços, como no dia em que a trouxe de casa duma prima sobrinha de uma tia-avó amiga da minha madrinha, e que caminhava rápido até ao fim do corredor.

Sonhei que fechava a porta com o pé e trancada ficava, só pela força da minha vontade. E sonhei que dava a volta à cama do meu quarto na casa da minha avó e me sentava atrás dela, escondida, com as costas contra a parede e a Cebola ao meu colo, aninhadinha, nervosa. Daquela posição diminuída via a porta a abanar como se fosse sair disparada. Via-a rachar. A Cebola enfiava as unhas no tecido das calças, procurando alguma medida de conforto que as minhas festas tensas não lhe conseguiam dar, e miava, gritava. E no meu sonho esse grito fraturava-se em dois, três, quatro…

 

Acordei; segunda noite, três da manhã. 

Lá fora a tortura dos gatos continuava, tinham começado onde tinham parado no dia anterior. Como se as horas entre as cinco e as três não tivessem existido.

Mas desta vez levantei-me. Puxei contra a escuridão e liguei as luzes todas, pus música, caminhei para trás e para a frente, de polar azul-bebé e botas de combate. Fiz todo o barulho que podia mas continuei a ouvi-los. Eles não seriam ignorados.

 

Não voltei a adormecer. Durante o dia que tortuosamente amanheceu, mal me aguentava em pé e a cabeça estalava-me pela falta de sono e como aviso da overdose de cafeína de que me aproximava.

Saí do trabalho e fui-me sentar outra vez na esplanada do Granada, certa que desta vez, alguém iria falar dos gatos.

Da mesa mesmo ao lado da entrada para o café ouvia a televisão aos berros com as notícias do dia, uma mulher fora assassinada pelo marido mas os detalhes perdiam-se graças à discussão da arbitragem merdosa do último jogo do Benfica. Os ânimos exaltavam-se na mesa de plástico que obviamente não aguentava com quatro homens a discutir ao mesmo tempo e até o cão de um deles se começava a agitar com o alarido. Do outro lado, à minha direita, duas mulheres cochichavam sobre a filha da Dona Joana que tinha engravidado do filho do engenheiro Silva –parecia-me que já as tinha visto, provavelmente viviam no edifício ao lado. Espreitei por cima do ombro, para dentro do café, dois velhos discutiam um com o outro, os cozinheiros riam entre si.

Fiz um gesto rápido à menina do balcão para pedir outro café e enquanto ela o tirava, lembrei-me duma história que me tinha sido contada há muito tempo. Já não sei como o assunto tinha vindo à baila, mas outra amiga tinha-me contado que um dia a sua tia tinha começado a ouvir o miar de um gato, assim do nada. Um miar muito assustado, aflito. Um grito duma criatura que está em pânico, a morrer. Um grito que pedia que alguém, quem quer que fosse, os salvasse. A confusão da sua tia tinha durado apenas um minuto. Rapidamente se tinha apercebido que o gatinho estava dentro da máquina de lavar.

Desta vez fiquei no café até às 20h30. Por essa altura já o café se parecia mais com um restaurante, com pessoas a optar por pratos fumegantes em vez de bolinhos e tostas mistas. Por essa altura já me tinha lembrado de mais cinco histórias diferentes de gatos que tinham morrido horrendamente, por descuido, mas na maioria das vezes por pura maldade. A história da minha tia e da bruxa, que nunca tinha conseguido reprimir por completo, era decididamente a pior de todas.

Quando fui pagar tive a coragem de perguntar à menina do balcão se por acaso ela tinha ouvido falar da situação com os gatos. É que já não durmo há duas noites, disse e ri-me um bocado histericamente. Ela não sabia do que falava, nunca tinha ouvido falar de tal coisa e contou-me, com o seu sorriso habitual, que nem sequer estava habituada a ver gatos nas redondezas.

Acenei, pois tem razão, realmente.

Deixei o troco e saí.

 

A minha avó ouvia coisas. Não eram vozes, coisas. Passos, portas a ranger, coisas a partir, uma infinidade de coisas. Sempre achei que eram as memórias dela que com os anos começavam a ganhar terreno sobre a sua mente; às vezes gritava o nome do marido para o lembrar de levar o almoço, outras vezes dizia-me para não abrir o portão, que quem estava a tocar à campainha era uma das putas do meu avô. Ninguém está a tocar à campainha, era o que eu dizia, no início, quando ainda achava que valia a pena. Ela gritava sempre que estavam sim, que não era louca e eu tinha de a impedir de ir a cambalear até à rua com a bengala no ar para bater numa mulher que não estava ali.

A enfermeira que nos visitava umas três vezes por semana, uma mulher que tecnicamente já não exercia desde o acidente de carro dos filhos, que tinha morto um e paralisado o outro, era simultaneamente um dos meus pesadelos e um dos meus maiores alívios. Enquanto ela lá estava eu podia ir para o jardim com a Cebola e sentar-me debaixo das árvores que a minha mãe tinha plantado enquanto fumava e a Cebola saltitava entre as couves. Uma paz temporária que acabava assim que me tinha de despedir dela, altura em aquela mulher, de olhar verde e inflexível, me aterrorizava com as suas conversas sobre a minha avó, sobre como era melhor que ela voltasse a ser internada no Conde Ferreira porque caso contrário, um dia ainda se ia matar como a minha mãe. A sua mãezinha, como ela dizia. E abanava a cabeça, dizia que eu tinha muita sorte por ela se ter atirado ao mar, em vez de a encontrar na banheira de pulsos cortados, ela conheceu muitos casos desses e assegurava-me que eram terríveis. Era uma cabra insensível e por muito que lhe quisesse berrar, a certeza com que ela falava silenciava-me sempre. Ao fim de dois anos a viver com a minha avó estava gasta, mas não era capaz de a mandar para o sítio que ela mais odiava, nem a minha tia nem o meu tio mo teria permitido. Por outro lado, se ela tivesse sindo internada, talvez ainda tivesse mãe. E daí talvez não, quem pode dizer.

Mas o pior desta enfermeira, o que verdadeiramente me marcava e me assombrava em pesadelos, era a maneira como ela olhava para mim, como se tivesse a certeza que eu acabaria como a minha mãe ou a minha avó.

 

As noites que se seguiram eram iguais, exceto nalguns detalhes, naquelas coisas que viviam no meu subconsciente e vinham à superfície quando, por cansaço extremo, perdia a consciência, às vezes na cama, outras vezes no sofá. Cheguei até a dormir na casa de banho, por querer acreditar que talvez ali não fosse ouvir os gritos tortuosos dos gatos que tinham vindo de nenhures e permaneciam algures longe de tudo e todos. Nestas noites era sempre visitada pela Cebola, que me vinha lamber as mãos, dar turras e mordiscar-me os dedos. Fazia-me segui-la, pegar nela e deambulava com uma leveza que já não tinha quando estava acordada. Mas acabava sempre naquele quarto claustrofóbico em casa da minha avó; sempre, a ver aquela porta que ameaçava quebrar sob as pancadas duma bengala que não lhe dava descanso. Acabava todas as noites de olhos arregalados a ver as fendas cravarem-se mais fundo na madeira, à espera do momento em que porta fosse abaixo e a bengala caísse sobre mim. Acordava sempre antes desse momento com os gatos a gritar. Foi por volta do sexto ou do sétimo dia que adormeci de olhos abertos e caí abaixo das escadas.

 

Ao acordar, pela primeira vez no hospital, sabia que eram três da manhã antes sequer de ter olhado para o relógio. Também sabia que se nos segundos que se seguissem ouvisse um grito que fosse, um só miar estridente, me ia atirar da janela abaixo. Por muito que os gatos chamassem por mim, por muito que me pedissem para os salvar, eu não conseguia salvar ninguém. Além disso, que injusto era, ter de ser eu a fazer isso. Porquê eu?, perguntei-me, deitada na cama a olhar para o teto. Tinha os olhos inchados e mal conseguia ver o que fosse pelas frestas que eles se tinham tornado, mas via as caras dos meus vizinhos. Via as duas senhoras que cochichavam e os homens que se punham lá fora à porta a fumar à noite e de manhã cedo antes do trabalho, via o dono da loja de quinquilharia da esquina. Todos eles vivam perto de mim, porquê é que tinha de ser eu a fazer alguma coisa? Até na menina do café começava a pensar com rancor. Mentirosa, ouvia-me dizer numa voz que me lembrava a da minha avó. Mentirosa.

Os outros também ouviam os gatos, estava certa, mas ninguém queria fazer nada, ninguém se mexia e os gatos continuavam a morrer todas as noites, entre as três e as cinco da manhã, e estavam todos contentes a fazer de conta que isso era normal.

Ao menos naquele hospital não se ouviam gatos. Não se ouvia nada.

Respirei de alívio. Doía-me tudo mas há dias que não me sentia tão relaxada, tão feliz. Mal conseguia ver ou mexer-me mas finalmente, havia silêncio.

Não sei dizer quantas horas já tinha dormido pela altura em que me lembro de estar conscientemente acordada, apenas que naquele instante queria ficar acordada para saborear todos os segundos de belo e puro silêncio.

Muito levezinho, mais leve que o meu lençol, ouvi um ronronar que teria reconhecido em qualquer altura ou lugar. Estendi o braço e fui encontrar o pelo familiar da Cebola, tão fofo e reconfortante. Tal como eu me lembrava.

A minha menina…

Sorri, descansada.

Não a conseguia ver bem, estava demasiado escuro e ela não passava de uma adorável bola quase luminescente ao meu colo. Estava quase a adormecer quando lhe senti algo molhado, pegajoso no pelo. Mas ela continuava a ronronar e eu deixei-me dormir.

 

Ainda não tinha amanhecido quando acordei com o som de passos furiosos. Abri os olhos o mais que pude. Luz azulada, clara, coloria o teto, caia sobre as plantas encostadas à parede, plantas que não estavam ali, que não pertenciam num hospital. Eram um par de roseiras cujas rosas brancas haviam sido tingidas por esta luz fria, roseiras como as que a minha mãe tinha no jardim de casa da sua mãe. Lembro-me bem de as ver tratar delas. E de chorar quando a via a cortar ramos para evitar que elas se apoderassem do caminho de pedra. A Cebola tinha desaparecido. Os passos continuavam, ora da direita, ora da esquerda, acima, debaixo da cama, da direção da porta. Tentava acompanhar e disso só resultou o despontar duma dor de cabeça. Gemi baixinho, chamei pela Cebola, mas sabia que ela não voltava. Uma voz familiar acabou com o caminhar, uma chamada de atenção.

Do lado direito, deitada sobre mim de olhos verdes muito arregalados, a enfermeira da minha avó chamava-me com aquele tom curto dela, dizendo Menina e nunca o meu nome. Gritei, mas a cara dela permaneceu imóvel, como se fosse feita de pedra. Sob aquela luz que se misturava com as sombras a sua pele parecia quase cinzenta.

Eu não disse, começava ela sem abrir a boca, eu não tinha razão?

Ria-se sem mexer os lábios.

 

Fui sedada aparentemente, não me lembro. Só sei que dormi imenso e quando voltei a acordar durante mais do que cinco minutos, o quarto de hospital já não tinha roseiras nem a enfermeira da minha avó. Apesar de ter recuperado horas de sono, parecia-me que os médicos e enfermeiras pensavam que parte da minha sanidade já não podia ser recuperada. Podia ser a paranoia a falar, lá para o fim a minha avó também se tinha tornado extremamente paranoica ao ponto de enfiar toda a comida que tínhamos em sacos do lixo, convencida que estava envenenada. O funeral já devia ter acontecido. E eu não tinha ido. Hm. Ainda havia algumas coisas que eu queria dizer, mas talvez fosse melhor fazê-lo sozinha, longe da minha tia que me ia ladrar na cara e provavelmente expulsar da igreja se eu lá tivesse tentado ir. Não me visitou, ninguém visitou e isso não me surpreendeu.

Apesar da paranoia e da loucura que sentia a rondar, tal como a minha mãe e a minha avó deviam ter sentido, ainda estava sã o suficiente para não falar dos gatos que gritam. Pelo menos não o fazia acordada. Mas as minhas colegas de quarto queixavam-se a todas as enfermeiras que eu passava a noite a falar dos gatos, dos gatos, dos gatos que têm de ser salvos, os gatos, os gatos.

Uma das enfermeiras tentou perguntar-me acerca destes gatos, brincava comigo e dizia-me que gatos não podem gritar. Como ela se parecia demasiado com a enfermeira da minha avó, não lhe disse nada. Olhando para trás, percebo que a única coisa que tinham em comum eram os olhos verdes. Mas não conseguia deixar de ouvir o riso da enfermeira da minha avó, das certezas dela e imaginava que perversamente ia ficar muito feliz se eu fosse parar ao Conde Ferreira. Esta havia de ser a última vez que entrava num hospital, só para a foder. Nunca tinha gostado de mim e eu sei que falava mal de mim à minha tia, e que a minha tia tinha todo o prazer em alimentar essas conversas. Sou preguiçosa e estupida, má e egoísta, tenho alguma coisa partida dentro de mim, provavelmente foi de vergonha que a minha mãe morreu. Se calhar se bebesse menos e parasse de me envergonhar a frente da família…

A única pessoa de quem eu gostei naquele hospital foi uma senhora nos seus quarenta, que lá chegou histérica, com um braço partido. Ouvi uma vez as enfermeiras a murmurar entre si, uma achava que era violência doméstica, de certeza. Essa senhora, cujo nome nunca saberei, foi a única que nunca se queixou dos meus delírios noturnos. Contou-me, no último dia em que lá esteve, que também tinha tido uma gata. Magrinha e de olhos muito meigos, castanhos. O marido odiava-a e estava sempre a deixar a porta aberta na esperança que ela fugisse e um dia nunca mais voltasse. E foi isso mesmo que aconteceu, um destes dias tinha encontrado a gata espalmada no asfalto por um carro que permaneceria para sempre anónimo. Agora, disse-me, mesmo antes de sair, Agora temos um cão.

 

Voltei a casa com a certeza que o meu período de descanso tinha acabado. Tão certa que nem me dei ao trabalho de vestir o pijama. Preparei um café e vesti umas calças de ganga. Calcei as botas e pus o hoodie preto. Troquei as lentes pelos óculos. Bebi o café. Guardei a lanterna na mala e esperei pelas três.

 

A minha tia acreditava no sobrenatural e tinha medo de bruxas. O medo provavelmente vinha da minha avó que, depois do primeiro esgotamento que teve, começou a dizer que via sombras, que era uma bruxa que entrava lá em casa para lhes deitar veneno no leite. Como resultado, ninguém naquela casa bebeu leite durante uma temporada e foi plantada a semente na cabeça da minha tia de que as bruxas existiam. As bruxas, dizia a minha avó, às vezes mascaravam-se de gatos pretos. E a minha tia, que nunca esteve no hábito de questionar nada, aceitou aquilo enquanto verdade inabalável e ainda hoje tem medo de gatos pretos. Mas tanto quanto sei, só chegou a matar um.

 

Ao fim de tanto tempo, do que me pareciam, do que sentia terem sido séculos de tortura, aqueles gritos tão humanos ainda conseguiam abrir feridas. Sem falhar, conseguiam sempre encontrar novos centímetros na minha alma que ainda não tinham sido marcados.

Esta seria a última noite, estava decidida. Saí à rua às três da madrugada e encontrei-as frias e desertas. A luz pálida da lua não conseguia tocar o chão – tive de recorrer à lanterna. Comecei a procurar os gatos, primeiro a passo rápido, mas depressa a urgência dos seus gritos, agora tão próxima, me fez correr. Ouvia a voz da minha mãe enquanto me contava a história que me tinha marcado para sempre, que me tinha feito odiar a minha tia e o meu tio. Descia a rua a correr enquanto a minha mãe me contava que, um dia, a minha tia tinha dito, com toda a autoridade, que estava farta de bruxaria lá em casa, queria beber leite outra vez e a avó já nem em casa dos outros queria que ela bebesse. E o meu tio, meio a brincar, meio a sério disse que se calhar a bruxa era a gata preta que passava pelo jardim e gostava de dormitar em cima do galinheiro, por baixo da árvore dos dióspiros.

A gata prenha?

Sim, essa.

E foram de noite os dois a correr, como eu corria agora, à procura da gata, como eu corria agora, guiados na noite pelos gritos de uma ninhada, como eu era guiada agora, aventurando-se por floresta densa, como eu me aventurava agora por uma cidade de edifícios altos e sombras maiores.

O som das crias tinha-os conduzido a um buraco criado por uma série de grossas raízes, a mim, a uma estação de metro encerrada para construção já há um ano.

Olhei para o relógio que se erguia como sentinela à entrada. Eram três e meia. A lua parecia estar a ganhar mais força, assim como os gritos dos gatos que me chegavam das profundidades.

Desci os degraus e pus a mão no gradeamento que cedeu ao meu toque, como se de bruxedo se tratasse. Abria-se diante de mim toda uma vastidão poeirenta.

 

Foi a minha mãe que, de joelhos e a chorar, implorou aos irmãos que não matassem as crias. Para a mãe era demasiado tarde. Tentara e fora atirada contra uma árvore – ficou com uma cicatriz na têmpora até morrer por causa desse embate. A minha tia acedeu, os gritos dos bichos sujos de sangue perturbavam-na e agora, que a bruxa estava morta, só queria sair da floresta. O meu tio ainda não estava satisfeito, mas deixou o pau ensanguentado no chão e foi o primeiro a virar costas. Mais tarde, a minha mãe soube que ele e os amigos tinham voltado à floresta, pegado nas crias e que as tinham arremessado à Maria Sardenta, uma miúda com os dentes tortos de quem ninguém gostava.

 

O feixe de luz da lanterna iluminava em pequenos troços a carcaça do que antes tinha sido uma estação de metro movimentada. Os gritos tinham-se metamorfoseado em pequenas súplicas que me apertavam o coração que batia desenfreado.

Movia-me rápido, aos tropeções, entre pedras e sacos e tubos e barras de metal. Tinha de fazer um esforço tremendo para os conseguir ouvir. Passei por paredes depiladas, desprovidas dos seus coloridos azulejos, paredes esburacadas que continham uma escuridão ainda mais profunda do que a que me rodeava. Lembrava-me, sem querer, de letreiros e pedaços de anúncios dos quais pouco ou nada restava. Sobretudo nada.

Foi na plataforma que comecei a ouvir o trautear de uma bengala. E por momentos deixei de ver a plataforma, só via a porta do quarto que agora era mais fendas que madeira, a pulsar com cada embate. A luz tremia-me nas mãos, os gatos tinham-se calado. Tinha chegado ao fim?

As batidas da bengala aproximavam-se mas a minha luz não conseguia encontrar a fonte. O barulho entrou em crescendo, tinha de segurar a lanterna com as duas mãos e então, a luz apanhou um vislumbre preto que se esfumava e movia em torno da luz, evitando-a. Era uma silhueta de fracos contornos e a única coisa palpável, a única coisa que parecia real era a bengala que empunhava. A bengala que agitava e bania a luz. Tentei recuar, pus mal o pé e acabei no chão de lanterna partida. A porta tinha rachado por fim, com um estrondo que explodiu nas minhas costas. Os meus gritos perderam-se na estação do fim do mundo, mas acordaram os gatinhos que mais uma vez se faziam ouvir. E foi isso que abrandou o golpear com a bengala. Descruzei os braços que me protegiam a cara e de olhos cerrados, arremessei a lanterna contra algo; bateu nalgo, ouvi o banque, senti as vibrações pelo braço acima mas não sei... Foi uma bengala? Uma cabeça?

 

As luzes que balançavam do teto ligaram-se com um zumbido. Os gritos já não eram gritos, era um miar contínuo, triste, que ganhou ecos, dois, três, quatro… Saltei para linha do metro onde jazia uma figura de linhas incertas que se apagavam diante dos meus olhos. A bengala tinha ficado perdida para sempre, enterrada na escuridão. No fundo do túnel pequenos pontinhos luminescentes passeavam em filinha, ondulavam em filinha, seis, sete, oito…

Saltitavam juntos, miavam em conjunto, um coro que iluminava a estação; fui como uma falésia e eles melódica onda, dividiu-se em duas linhas a procissão de gatos, uns sem olhos, outros sem cauda, passou um que tinha o torso queimado e outro que caminhava completamente encharcado, e outro ainda cambaleava com a cabeça rachada.

Estava sozinha com os dez, vinte, trinta gatos que miavam e ronronavam. Estava sozinha e chorava por mim, por eles; eles que brilhavam com uma luz branca que vinha de dentro, que lhes adivinhava os seus pequenos esqueletos.

 

Quando saí da estação esperava que o sol se estivesse a levantar mas continuava escuro como breu. Subi as escadas. Parei para limpar os óculos e olhar o relógio. Eram 3h30. Não tinha passado tempo nenhum e no entanto não se ouviam mais gritos. Perguntei-me quem é que teria razão, se o que se estava a passar era loucura como a enfermeira dizia, se bruxaria como a minha tia acreditava. Perguntei-me se iria acabar no Conde Ferreira, talvez merecesse isso. Afinal de contas foi para lá que mandei a minha avó. Talvez isto fosse vingança?

Comecei a caminhar, precisava de dormir, de descansar este corpo golpeado.

A minha avó tinha-se tornado má, foi a doença, eu sei, e mesmo assim mandei-a embora para não me tornar também eu má. Deve ter morrido a odiar-me. Como eu a cheguei a odiar pela morte da minha mãe, como odiei a minha tia e o meu tio por passarem a responsabilidade de tomar conta da avó para mim. Como odiei a enfermeira por me condenar com as suas certezas.

Cheguei a casa e mal tinha erguido a cabeça, tive a resposta a uma das minhas questões. Vi uma coisa branca a sair disparada da janela do quarto, a fazer um arco perfeito que eclipsou a lua. E lembrei-me de estar no jardim agachada na terra, a apanhar a prata, os garfos e os pratos e as facas e de ouvir o vidro a partir com um estrondo e um guincho e antes que pudesse levantar a cabeça já a minha Cebola tinha aterrado, coitadinha, entre as couves e as cenouras. 

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