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A Folha em Branco - Marta Marques

por Imaginauta, em 11.09.17

O sol desapareceu e as nuvens cinzentas e pesadas denunciam a tempestade. Tudo parece negro e destinado à desgraça neste dia prestes a terminar. As mãos suam, a respiração é nervosa e a chuva começa a cair ruidosamente. Num suspiro a cara desvia-se da janela. Os olhos passeiam-se pela sala escura, cheia de folhas rasgadas e amassadas. Pratos e chávenas com restos de comida putrefactos empilham-se sobre a mesa. Apenas um foco de luz clareia o ambiente, iluminando o piano e uma partitura em branco. As claves embelezam as várias linhas da pauta, mas nem uma nota, nem um ritmo! Porquê? Os dedos suados e nervosos tentam tocar algo, alguma nota, qualquer coisa. É preciso que uma tecla do piano soe! Não há música a pairar na sua mente, nem sequer ouve dentro de si a primeira nota! O que se passa? A respiração continua ansiosa, cada vez mais desregulada e as unhas começam a arranhar as teclas ruidosamente. A música, essa, continua silenciosa!
O compositor levanta-se do banco do piano e pensa que talvez à janela, ouvindo a chuva turbulenta e o vento desenfreado, alguma melodia lhe ocorra. Dirige-se à janela e abre-a. A água da chuva começa a entrar dentro de casa. Não importa! Ele quer mesmo ouvir a força das gotas gordas que batem no chão e o som do vento desvairado. Talvez assim a música destes entre pelos seus ouvidos. Ouve! Ouve! Nada!
Porque é que naquele dia, o último para a entrega da sua encomenda mais importante, não consegue compor o segmento final da sua mais criativa e estrondosa peça? Como terminar a sua obra sem matar todas as belas melodias e ritmos crepitantes que cobrem todos os andamentos já compostos? Como criar no corpo de quem escutar aquele final a sensação eterna e penetrante que o vai fazer arrepiar? Como eternizar estes sons? São apenas mais alguns compassos, mais algumas notas e acabou! Porque é assim tão difícil?
O compositor sai da janela e dirige-se à louça empilhada sobre a mesa. Agora está como que congelado e sem qualquer emoção, recolocando a louça, uma a uma, numa nova torre. Lentamente pega em cada uma das chávenas, em cada prato e reconstrói o caos. Vai retirando meticulosamente cada bocado de comida putrefacto, levando-o à boca. Tudo isto sem expressão, sem esperança. É preciso terminar a obra!
Volta à janela. Tudo está molhado, mas nada disto é importante. Os pés descalços pisam a carpete ensopada sem qualquer reacção. A cara inclina-se para a frente para sentir a chuva e o vento! Um raio ilumina-a e o estrondo do trovão ouve-se de forma ensurdecedora. Tudo reage, menos o compositor! Foi tão perto que a casa e a rua abanam como num tremor de terra e ouve-se o estrondo do raio. A louça cai com estrépito no chão. Os cacos espalham-se pela sala. Mais uma vez o compositor não reage. A sala está cheia de bocados de comida e estilhaços, mas nada disto importa! Volta para o piano. Caminhando sem esperança e muito devagar, os seus pés nus pisam os cacos e os restos de comida. Não, não importa! Onde está a música, onde está a melodia? Porque não a ouve dentro de si?
Senta-se ao piano. As mãos deslizam pelo teclado sem que consiga tocar qualquer som. Ouve-se outro trovão, agora mais ao longe. A sua face molhada da chuva parece chorar toda a frustração que o seu corpo frio e indiferente não consegue. Uma das gotas rola da sua bochecha para uma das teclas do piano, ele olha-a completamente inerte. Cai outra e outra e mais outra! Os seus dedos arrastam-se pelas teclas e enxugam cada gota, ouve-se cada tecla, cada nota, mas num som tímido e triste! Silêncio! Mas será possível? Estas notas sem força e deprimentes entram pelos seus ouvidos e o compositor começa a acordar da sua apatia. Talvez estas notas façam sentido! Concentra-se na chuva, na melodia que tocou e imitando a força da tempestade vai repetindo aquelas notas. Será? Poderá ser este o tumultuoso caminho para o final da sua obra?
Levanta-se. Começa a andar pela sala e a cantarolar a melodia, agora freneticamente. Os seus pés descalços voltam a pisar os cacos, a comida podre, as poças de água, mas nada disto é importante! A voz continua a entoar a melodia. Repete uma e outra vez! Pára! O seu corpo estático ouve internamente a melodia que continua dentro de si. A música desenvolve-se no momento em que fecha os seus olhos e revira a cabeça ao som do ritmo. A música paira pelo seu corpo, mas agora interna e silenciosa.
Volta para o piano e com um lápis começa a escrever na partitura. A velocidade é estonteante. Todo o corpo é música e é transcrita para aquelas pautas de uma forma nervosa e desesperada. Terminou! Olha para a partitura acabada e vê uma pequena bola negra no cimo da folha. Com o lápis fá-la saltar e cair da folha. Não percebeu bem o que era, mas que interessa, finalmente terminou! Mas será que realmente todas aquelas notas fazem sentido?
Pousa os dedos nas teclas do piano e começa a tocar todos aqueles gatafunhos. A melodia ecoa pela sala! O compositor fecha os olhos, continua a tocar e a música flui
como se todas aquelas notas se tivessem apoderado do seu corpo. Aquele som atingiu a perfeição, será possível? A sua voz começa a cantar a melodia acompanhando o piano. Tudo isto é um momento de epifania, de magia! Como foi ele capaz de algo tão perfeito? Afinal a perfeição existe? Sente algo na perna e coça sem nunca parar de cantar e tocar com a outra mão. Não consegue parar! É o final da sua obra, é a perfeição que pensava nunca ser capaz de alcançar. Abre os olhos e repara em novas pequenas bolas negras. Ele está tão hipnotizado pela música incessante que não se apercebe de nada à sua volta. Tudo é insignificante comparado com a grandiosidade daquele momento! A inspiração voltou e conseguiu acabar a sua grande obra! Nada mais interessa! Não consegue parar de tocar, não consegue parar de cantar!
Canta mais uma vez a nota final, mas agora mais longa e forte como um grito! Os escaravelhos entram pela boca, pelo nariz, pelos olhos, pelas orelhas. Mas o corpo, como que assombrado, volta a tocar e cantar a melodia hipnotizadora! Os dedos, pejados de escaravelhos, continuam a mexer e a tocar nas teclas, enquanto os bichos irrequietos se amontoam aos milhares comendo tudo por onde passam. Estes arrastam-se pelo piano, pelo compositor, pela pauta, por toda a sala. A partitura, testemunha da obra máxima e perfeita, começa a ser destruída pelos pérfidos animais. Não é importante! Está tudo na cabeça do compositor e ele continua a tocar. A sua voz continua a cantar aqueles sons inebriantes! Os escaravelhos continuam a aparecer, a amontoar-se e a destruir. E o compositor completamente hipnotizado e extasiado, não percebe que o seu corpo está a ser dilacerado. A partitura já desapareceu! O piano e a voz páram! Silêncio!
A chuva, o vento e os trovões deixam-se de ouvir. O corpo do compositor está imóvel. Até as patas dos escaravelhos que se amontoam deixaram de se movimentar. Tudo está estático! O silêncio é o único som e é ensurdecedor! O corpo do compositor cai estrondosamente no chão! Porque é que é tão difícil compor um final?

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publicado às 18:32


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